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Quem Cala, Se Sente

Mais uma palavra pra comer
pra me rasgar
me mutilar
até dar o sabor e o prazer
que sai da alma em forma de som.

locopepart — 13-02-2009 GTM -3 @ 01:53

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Milenaneando

Com muito leite e mel vão
Aqui estou a te ver
Como demônio brincante em meu cafezal encarnado
Espantalho sou, a acalentar a volúpia que te esconde bem:
Um anjo de valor
Dois diamantes principiando a serem venerados.

No se toca, se mira
No se toca, se mira
No se toca, se mira
No se toca, se mira
No se toca, se mira
No se toca, se mira

locopepart — 13-02-2009 GTM -3 @ 01:49

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EX-AA

“Embriague-se lhe em cessar para não sentir o fardo pesado do tempo; de vinho, poesia, virtude, a bel prazer!” (Charles Baudelaire)
Moro na cloaca do Bixiga. Antes de tudo, sou filho do Bixiga, coração da boemia paulistana – criando meu caráter de gole pra santo em gole pra santo. E o mais dantesco, nem viciado era. Nem mesmo da noite. Nunca tinha visto nem a própria menina-puta que dá início ao Xangô de Baker Street, aquela que cambaleava seminua e delirante na rua para morrer de graça na primeira golfada de vômito. Degolada pelo próprio vício.
Ontem mesmo tinha vomitado granola e rúcula, quase dobrando a Rua Domingos de Morais. Tinha aproveitado também o almoço de ontem.

Estava com fome.
E não é que elas tinham razão?

Alguém já tinha visto um viciado puro? Eu mesmo, quando conheci Samara. Típica menina-do-Rio, saudável até a medula, Q.I. de ameba em coma e alma nojenta pra caralho. Apesar de conseguir a proeza de engravidar de dois gêmeos num fim de semana (fruto de um golpe bem aplicado qual o gênio da raça fudido em Dalton Trevisan), pulando a cerca no quintal da Marsilac, ela se vangloriava de seu naturalismo “natural”. Não bebia, não fumava, não botava silicone. E não trepava, principalmente com pobre – era vulgarmente deselegante para a sua estética!... eu até que não fugia do seu estereótipo de virgemzinha suculenta: executivo da Herbalife, digna representante da indústria marombeira na BOVESPA, e por incrível que pareça, negócio não tão estressante embora tão milionário quanto uma arma de fogo ou um filme pornô. Pior: Samara se apaixonou por mim, a primeira e involuntária puxada de ferro.

Eu pelo menos tenho testoterona e nasci no Brasil – precisamente em Sampa. Morena alta, coxuda, corpo escultural, e com marcas no seio empinado que me deixava louco. Na parte mais lírica do “ficar” (ela viajava com casamento, que pra mim simplesmente é meia morte), enforquei até meu sagrado lazer profano: os jogos da Portuguesa no Canindé. Acredite, não é todo dia que você leva uma modelo para a cama. Pra que? Modelos no Brasil sempre buscam fama. Mas matemos por aqui meu preconceito infantil (ela já era o próprio).

Aceitei sem grilo. A Lusa estava mal das pernas e ia jogar fora de casa. Samara fez questão de me pegar no meu apê pra um bate-papo na casa dela, pertinho do Ibirapuera. Logo de cara, encontro com meu suplício cantinflesco: o pai dela.

***

O cara tinha volume e barriga de um bon vivant respeitado da paulicéia. Um careca de pele quase albina e muito falante, de uma alegria exaltada e boa prosa do vivant, mas bom ele seria se não fosse uma teimosia de jumento no politicamente correto. Ele também era da região, vizinho do meu Bixiga, porém o bairro dele era Santana, o mais tétrico e conservador dos bairros paulistanos. A sogra era senhora de lá, mendigava decência na televisão em todos os estúdios existentes: Sumaré, Brooklin, Avenida Paulista, Morumbi, Vila Guilherme, Água Branca, até o Aeroporto, onde foi atropelada à queima-roupa por um Santa Esmeralda. Morte instantânea ali mesmo, no outro lado da Avenida Miruna, em frente à TV Record, após um bate boca com o próprio Marechal da Vitória. Foi em meados de 81, onde o trânsito já pegava fama de animal. O irmão, de caráter velho em canções novas tal como ela, era inspetor do DOPS e integrante da TFP. Quando as Diretas chegaram, se enforcou num fio de telefone por se cansar da fama de reacionário.

Logo e quase de cara, Samara e o pai dele advertiam-me de sua mágoa com a fama de reacionários, só porque eram avessos à noite e preferiam Santana ao Bixiga. Então se diziam “de hábitos saudáveis” e nem era por menos: fundara um núcleo dos Alcoólicos Anônimos atrás de seu apê. Argumentando algo como não sei o quê – tinha me perdido em seu atabalhoado discurso de pastor – tinha me convidado para ir a uma dessas reuniões, com recíproco e imediato veredicto de Samara. Como já sabia dessas reuniões e não tinha botado uma gota de álcool na boca, tive uma relutância no princípio, mas acabei cedendo graças ao bom papo daquele senhor. E ao corpinho suculento da filha dele.

Gaiato que sou, já tinha fudido ela na noite seguinte. Horas depois ela tinha me deixado no local da reunião, e estranhei que ela tinha que ir embora e me deixar sozinho com outros tão teimosos no ofício de abstêmios. Mas aceitei, desde que ela me jurasse que ia me buscar para passarmos a noite in natura na minha casa.

***

Em um panorama ora engraçado, ora grotesco, fui bem recebido pelo grupo. Olhos com um certo brilho de faca cega, como que tivessem direcionado apenas para o próprio umbigo, ou seja, sua falta de álcool, de humildade e de natureza humana: eles não abriam mão do orgulho de serem abstêmios. Uma gentileza e educação maquiados com aquele olhar de alto a baixo, como se houvesse mais um alcoólatra para ser exorcizado – me sentia um índio tamoio em meio a jesuítas portugueses; “um gentio que precisava ser salvo”. Com a incrível sensação e proeza de um abstêmio no seco em meio ao AA.
E naquela luta contra o vício, acabei pegando o vício.

Chegando para Samara depois da reunião, joguei tudo em pratos limpos: contava o clima, os exemplos, as doutrinas, as recomendações, etc, etc. Tudo em que você pensar em convencer o pobre otário a parar de beber (sem necessariamente botar uma gota de álcool na vida). Eu expunha, deixava a sarada ainda mais excitada, e quando ela queria saber mais do X da questão, dizia que era segredo; tinha que ficar entre os anônimos. E dava mais vontade de fuder aquela escultura de carne rígida. E ela se apaixonando ainda mais por mim, derramando-se em sua carência crônica. Cai numa arapuca de uma carente sarada. Mas como tudo tem um alento...

Enchi-me da Samara três meses depois, em um só click: recusei uma balada que ela queria curtir na academia e não quis. Acabei quebrando o pau e dei o fora – com todo mundo pensando que fosse uma espécie de incompatibilidade de gênios. Que nada! Era por causa de uma meditação “de estado” e um fulano de tal que tinha trepado com o primo por causa do álcool. Cada idéia que me aparece.

Como eu! Depois de dois meses, ela quis voltar e tinha dado um sinal. Já estava em uma sadia psicose, onde deixei de fazer meus projetos, trocar minhas idéias na agência, ir aos meus domingos no Canindé. Até deixar o emprego quase deixei, só por causa daquelas reuniões de abstêmios suspeitos. Era o último a sair e o primeiro a chegar, já dormi um fim de semana naquela sede e bebia toda aquela reunião com a dedicação mentecapta de um fanático religioso.

***

A depressão me bateu num outro fim de semana. A vida ficou chata demais com minha vida de monge adventista, de viver pela regra e matar-me a mim mesmo e minhas prioridades. Dureza pura: foi como se eu quisesse cair na real e eu mesmo não deixava, como se minha vida resumisse a ojeriza mortal a um inocente pingo de entorpecente (que talvez ia girar a roda da fortuna para mim e contra o tédio de uma vida adestrada). Vida besta! Que época chata de se viver! Então eu não como, não grito, não respiro, não tenho família, nem futuro, nem tesão, nem vida. Pra que é que eu vim ao mundo? Pra evitar o primeiro gole – se eu nunca botei uma merda de álcool na minha vida? Não bebo, não fumo, não trepo, não faço porra nenhuma: só vegeto, me mantenho um santo decaído pelo dever, por causa de um gole que nem sei se faz bem ou faz mal. E o pior é que nem se pode falar em suicídio – até porque eu já estou cometendo com o caralho da minha disciplina implacável a ponto de entrar numa rotina estática! Se eu tivesse, ah, se pudesse regressar, teria enchido a cara antes de conhecer Samara, agora tarde demais: nem se questione por que senão eu peco contra a moral... Vai tomar no cu, mundo cruel!!!

E de repente, uma luz no fim do túnel, uma orientação que tanto precisava.

***

Dilminha Py, uma intrépida bargirl & performer do Via Funchal, trombou comigo virando a Ipiranga com a São João. Meio sonsinha e muito simpática, do tipo irmã mais velha sem aquela chatice trivial, doida pelo som do Led Zeppelin que nem eu, e nas horas vagas, o topless mais sandy da Leões da Fabulosa, a velha jóia rubro-verde nos domingões de futebol no Canindé. Foi pura poesia. A cara da Daniela Cicarelli sem ter aquele seu pudor desgraçado. Valeu, Senhor, por essa trombada quase a meio-fio da esquina-bálsamo de minha querida capital paulista, tão poética quanto o Mário de Andrade, e tão filosofia a marteladas quanto Friedrich Nietzsche. Acorda! Você está bem? Atenção seu abstêmio fudido, se você ainda pode me ouvir, levante a mão direita! AA? “Ô, é mesmo”... Tomei a ela em minha mão direita e saímos sambando uma valsa do Jimmy Page pelo centro da cidade.

Altas horas depois, Samara e seu pai vieram me encontrar aos beijos com Dilminha. Não teve dúvidas, ela se jogou debaixo de um Scânia lotado de galinhas voando na pista molhada, e ele saiu relinchando do outro lado da esquina, pensando que era traição os beijos cálidos de Dilminha que bebia em minha boca – insisto: bebia um pecado de mel. Ah, ah, e eles pensando que era traição!...

Quando na verdade eu estava na minha cloaca. Na santa noite de garoa do Bixiga, devorando aquele gole gelado da primeira marca vagabunda de cerveja que botei na boca. Minha primeira e ansiada gota de álcool na minha vida; e tout est bien comme tout est bien!

(conto inspirado em cena do filme Clube da Luta

locopepart — 22-01-2009 GTM -3 @ 10:08

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REQUIÉM DE ANTÍGONA

“Ai de mim, sem lar entre os vivos, estrangeira entre os mortos.”. (da peça Antígona, de Sófocles)

Estou de partida.
Se são horas, não sei. Eu espero
Vivo esperando neste porto de carne e osso
Sem saber qual a nau que me levará
Nem pra onde, nem como, nem porquê
A vida é espera. A morte é viagem.

Amigos, inimigos, fracassos sonhados
Lágrimas sôfregas brotando de minha espera
Este porto metafísico e esta nau abstrata
Mistério por si mesmo
A vida é angustia. A morte é descanso.

Todos nós vivemos ao porto
Em tensão constante pela nau a esmo
Ainda que sob intriga, delírio, culpa ou fatalidade
Ela nos espera já no cais do ventre.
A vida é fúria. A morte é paciência.

Cais, porto, nau, ah... O que é o destino?
Que forma ou traço surpreenderá os sentidos?
Que paisagens degustarão enfim
A platéia metafísica banhando-se à (não) luz?...
A vida é doce. A morte é colorida.

Onde os opostos se casam
Onde os concretos se derramam ao abstrato
Onde baila enlouquecida em aquarelas negras
A nau que nos carrega nessa dança ébria
Com suores e lágrimas de eternidade e adeus
A vida como ela é. A morte... como será?

- Não sei. Estou indo saber.
“Olímpia Formol”

locopepart — 22-01-2009 GTM -3 @ 10:00

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Ego

Monstros e ninfas nuas superlotam a prisão de meus id’s.
Não faço arte para críticos para críticos
Faço arte para mim.
Com licença
E me desculpe juntar as lonas e saturar minh’alma:
Hoje tem espetáculo!

locopepart — 30-12-2008 GTM -3 @ 18:22

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IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIER-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR-BR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (ou Só Me Falta Um Potro Mouro Que É Pra Sentar Meus Arreios*)

Música pode não ser exatamente como o futebol, mas todo mundo gosta e imagina saber alguma coisa. Natural. Até quem não sabe nem distinguir um tom precisa dela para dar colorido ao seu destino. E no sacro direito da opinião, está tudo aberto para sugerir, discordar recorrer ao pitonismo ou até mesmo revelar algo que é de seu desagrado. Naturalíssimo até certo ponto. O grande problema é quando tais explanações e críticas, como em estilos e épocas ultrapassadas do jornalismo, rompem os limites da coesão e coerência de pensamento, da ética, do bom senso e do respeito – pois isto mexe com gostos e intenções (sejam em qual grau estiver) que o cara mal conhece.
Dirá alguém: “É meu dever orientar o leitor pro que é bom!” Na ótica de quem? Sob qual ‘padrão ideal’? Confundindo ironia mordaz com deboche arrogante? Nada mais em sintonia com a sabedoria cristã do não-julgamento a afirmação do melhor jornalista esportivo do Brasil, Mauro Beting: Defecar regras é muito fácil, o difícil é ensinar. E o que as ditas viúvas da pré-histórica crítica jornalística tem mais feito é exatamente o anti-Beting: defecar regras, ou no seu gosto, ‘ironias’.
Paulo Francis, Fernando Jorge, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, José Ramos Tinhorão, Wilson Martins, até mesmo Oswald de Andrade – um dos papas do Modernismo Cultural brasileiro – e fora os outros nomes obscuros da crítica do passado. Criaram até seu cartaz por meio de suas escalas industriais ao produzir ajuntamento de cientificismos, tecnicismos, palavras e conceitos europofílicos, estéticas falhas, conservadorismos cadavéricos, preconceitos infantis e enxergar a massa popular como uma lepra bíblica. Assim era a moda e o status de um estilo morto e sepultado na imprensa brasileira. E que ainda assim cativa carpideiras fiéis, inclusive em Sergipe.
Não sei como foi a infância de um certo Igor Matheus, ilustre encilhador de roupas musicais no Cinform. E nem cabe saber, mas o texto de principiante e o conhecimento injetado no erudito e excludente Conservatório de Música de Sergipe tratam de fazer o seu retrato. O caso em questão é o da música sergipana, que há muito peleja por um reconhecimento mais expressivo no cenário local e nacional. Por hora, essa peleja também é por um amadurecimento na produção, divulgação e na crítica, quase que (re)instalada em níveis sergipanos. Em tempo: a peleja se estende na cultura sergipana como todo e é de responsabilidade de todo cidadão valorizar e fazê-la alcançar esse estágio; e a imprensa é a picanha deste churrasco, e o artista, filé-mignon.
Aliás, e a cargo de informação, o Artigo 17 do Código de Ética dos Jornalistas diz que é obrigação do jornalista zelar pela língua e cultura nacionais. Qual o quê, se o dito cujo estudante já estuda mal, escreve mal, canta mal e, quando é perguntado sobre Ética, ele pergunta: “Seria ela a trigêmea bastarda da Branca e Bia ou uma palhaça sonsa d’O Teatro Mágico?” (sic, e se a frase for correta, esse sic é proposital). No que depender dele, deve ser o último pangaré a ser ferrado em brasa.
Falando em Ética e pra não dizer que não se falou de música, surge o velho adágio: se não quer ajudar, não atrapalhe. Que se dane o seu ódio, seus traumas e suas rugas provavelmente lhe deixados pela música, mas é lamentável que se ponha em xeque o gosto e a difícil e prazerosa arte de escolher a música como ofício. Música que tem em si poder para curar ódios, traumas e rugas da alma. Dizem que a crítica também os expurga, até quando feito de forma irresponsável e destrutiva. O escriba deste texto perdeu o pai por suicídio, quase morreu por alergia à remédio, foi vítima de bullying na escola e soube vencê-los com a força de vontade e a fé em Deus (o que no desvario de Igordão é capaz de ser o Dioguinho da Veja) – logo, o escriba agradece por não precisar vestir a roupa de “crítico musical” para expurgar os sofrimentos da infância. E gosta de boa música, sim senhor!
Mas se nem este, nem gregos, nem araras e nem cajus são Bonfim ou Jozailto, tudo bem. A livre imprensa permite aos masoquistas e gentios de plantão que se deleitem com certos tipos de jornalismo que metem as esporas em boi xucro e fingem que orientam o leitor com a Igordura encefálica – mais fálica do que encefa. Tipos tais que já entraram queimando o filme, na visão de experientes jornalistas culturais da terrinha. Ora, se até um reles cavalo já tirou esse raciocínio, o que dirá o inteligente leitor, este potro mouro de raça. A não ser que na Igordura do Matheus, Dona Naspers e Reisado de Torquemada e sua-ética-por-um-estábulo, só lhe falta um potro mouro que é pra sentar seus arreios.
Mas, COMQUEARREIOS?

*verso final da música Pêlos, de José Cláudio Machado, considerada uma das pérolas da música nativista gaúcha. Potro mouro é como um jovem cavalo de raça é chamado nos pampas.
Obs: Um dia pediram à Guga Oliveira fazer uma reportagem com algum membro da Trovão Azul ou da Esquadrão Colorado, organizadas de Confiança e Sergipe; e ele recusou dizendo que queria viver. Quiçá alguém mande à Igordinho um CD de Proibidões da Trovão ou TEC pra fazer a próxima “crítica”.

locopepart — 30-12-2008 GTM -3 @ 18:21

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Zzzzzzzzzzzz...

Depois de um sono profundo, cá está este blog sem compromisso. Meu mural ambulante e esfarrapado para os meus racionalismos delirantes.
Sigo escrevendo, ou tentando. Este foi um ano meio louco e muito bom, começãndo a ganhar uma gaita digna e suada e me realizando no trabalho. Em parte dos meus desejos. Brigando pelo meu prazer. Viajando e amando. Louco pelo Coringão.
Assim que a cabeça coçar, vou girando o blog como posso.
Pra virada do ano acho que vou abrir um outro blog, só de futebol: meu timão voltou louco pra dar alegrias.
2009 fenomenal e de ótimos vocês para todos!

locopepart — 30-12-2008 GTM -3 @ 18:14

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Do Jeito Que Ainda Nem Sei

Se fosse chato, você agüentaria?
Se fosse brega, você me cantava?
Se eu falasse merda, me ouviria?
Se eu te pedisse um beijo, me negava?
Se trocasse de religião, perdoaria?
Se sujasse tua casa, me limpava?
Se tivesse emprego pra mim, ajudaria?
Se tivesse um segredo, me contava?

Se eu fechasse a mente, me abriria?
Se eu sangrasse a alma, me estancava?
Se eu caísse em erro, me corrigia?
Se eu perdesse a piada, gargalhava?
Se me aporrinhasse, me acalmaria?
Se enchesse a cara, me acompanhava?
Se em você vomitasse, me xingaria?
Se eu tivesse depressão, me curava?

Do jeito que eu sou, me deixa seguir
Do jeito que ainda nem sei quem sou
Me deixa (re)descobrir

Se eu escorregasse, me ergueria?
Se gritasse em tua casa, acordava?
Se me apaixonasse, me abraçaria?
Se desse uma cantada, me enforcava?
Se apontasse um caminho, seguiria?
Se quebrasse teu espelho, restaurava?
Se tivesse insônia, me alentaria?
Se o tempo me cansasse, me acalentava?

Se eu compusesse mal, me zombaria?
Se te devesse só amor, me cobrava?
Se a vida fosse inferno, me salvaria?
Se o céu fosse o limite, me levava?
Se eu seguisse o jogo, ganharia?
Se fosse arquirrival, pelejava?
Se fosse um político, confiaria?
Se eu fosse um ator pornô, você me amava?

locopepart — 29-12-2007 GTM -3 @ 12:51

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Diversão (conto paulista-escatológico em 1 ato)

Rodei num CD algo mais cultural pra aquele babado: um rock. Daquele tipo Lucy in The Sky With Diamonds, do Beatles, música até mesmo sugestiva para a minha sede de justiceiro. Peguei com todo zelo a Taurus velha da minha tia carregado e lustrei-o que deixei um brinco, pois não podia perder a oportunidade de brincar com minha vingança: havia um casal clubber me esperando.
Estavam amordaçados com correntes e até uma sucuri morta pra dar sustância e não sofrer uma surpresa – e nem tinha como haver, pois choravam de raiva e medo por aquele momento, sentindo que estimei meu ódio americano examinasse os palominos de alto abaixo. Só então eu girei o tambor para o sorteio. O tambor deu um clima de cassino para a balada, empurrei com tudo e engatilhei o revólver na cabeça verde de uma patricinha sarada e convicta de ser do antro. Frente ao meu orgulho de ter atitude (ainda que de maneira duvidosa), só bastava um click.
- Em que lado cê quer que eu estoure, pagodeira filha da puta?
Tinha apenas o som do Beatles como testemunha. Estava chateado apenas por ter que manchar com os miolos de clubber (se é que ele tem) a camisa 10 do meu São Paulo, novinha em folha, que tinha ganhado do Raí. Fui sensato. Disse à nojenta que ainda não era a hora, só ia aumentar o volume do CD, tirar a relíquia pra considerar o terror das patricinhas, amarrar no “cabelo deles” uma camisa roubada da Gaviões da Fiel e pronto: os pombinhos diferentes podem curtir um bate estaca na desova da esquina.

***

- Não respondeu minha pergunta, cachorra?
- O... raa se-eu...
- Cala a boca, porra! Se encher o saco, vai no pirulito! Aliás...
E de repente aquela boutique me deu pena. Depois de chorar tudo que tinha de chorar (mais pelo John Lennon e pela favela do que sua própria vidinha de daugether of the bitch) me olhou com olhos tão profundos que gelei por dentro: os verdes reluzentes e a fina sobrancelha desenhando perfeito com o nariz delicadinho, fora a boca de miss embebida em batom preto, lábios carnudos, perfume de gueixa, muito tudo. Ah, que pena: vou ter que mudar de idéia!
Rasguei o meu short e girei o tambor novamente, a clubber agora vai brincar de boquete – até porque o 38 velho tinha um cano tão avantajado quanto o meu. Agora é ela quem decide ou pela baixaria ou pelo cemitério.

***

- Escolhe.
- Tira essa musica...
- Uhuhuhuhuhuhuhuhuhahahahahahahahahahah! Nunca ouviu falar de roleta-russa? Hein, seu viado bate-estaca?
- Você me bateu!
- Guti-guti! Olha bem aqui: de seis boates chiquérrimas dentro da minha máquina tem cinco sonzera doidinho pra entrar na sua mente. Qual que você quer?
Um minuto e meio sem resposta decente daquele babaca. Aquilo já me enchia a paciência. será que eu sou burro o suficiente pra admitir um clubber ou é ele quem esta fazendo pose? Ai de mim, estou tomando até um olé dele, afinal ele era o namorado da filé, e o líder daquela gangue diferente. Diferente? Quando eu ficar bom com ele, alguém se habilita a imaginar dentro de um breu preto do baby-look pagodeiro, uma cabeça arco-íris tatuada e cheia de piercings depois de uma bala de AK fazer um beat bombado furando no meio daquela testa?
- Tu tá querendo curtir com a minha cara, seu ousado? Sou eu que fico pagando a tua festinha fútil...
- Você tá brincando.
- Brincando eu? Matei uma porrada de playboy pra ver se eu saía da merda e tu acha que eu tô brincando? Chega de me enrolar, escolhe essa porra, vai!
O cara conseguiu algo até então quase impossível: me esquentar. Já me acostumei a ver essa vida louca de arquibancada, mas não costumo me comportar como em dias de pegar a 9 de Julho no mulão da Torcida Independente pra ver o Tricolor salvar meu dia. Aliás, apesar de tantas críticas dos mais quadrados, esse lance de torcida organizada é excitante pra caralho – ainda mais em um país que se diz grande, tão bom de bola e é tão sem comida, tão fudido de grana, corrupção, miséria, onde lucíferes defendem a moral e os bons costumes para ocultar seus próprios crimes. Em meio a tanta palhaçada, tenho na violência meu único prazer: você acha que tenho que ficar feito macaquinha amestrada nessa porra de circo? Só pra agradar um Flávio Prado e seu chiqueiro epilético e cultural? Ah! Ah! Ah! Eu acho que não!

***

Depois de uma dessas andanças com a Independente, bati um ponto no Romanza assim que cheguei do Largo Paissandu, arrasado-me a treta que tivemos com a ilustre galinhada (Fora o baile que tomamos no campo). Elas tiveram o que queriam: dispersou nossa torcida na base de muito soco na cara, bomba explodindo nas canelas, rojão de 13 tiros, vários panos queimados e um mulatinho banguela ia me cumprimentar com um balaço no coração. E não deu, pois a polícia tinha chegado antes. Meio que discreto, pedi um drink básico pra garantir sossego pro meu bocado de grana, pelo menos mato a sede e quebro o galho. Até que uma loirinha seminua quase tipo clubber veio tentar uma cativa. E eu tentando ser um pouco discreto, pois sou exímio rabo de saia.
- Oi, eu sou a Bianca...
- Legal, gata. Não tem caô.
- Hum! Encantado... Não sabia que era tão badalada por todas as classes...
- Tu tá se achando, princesa!
- Eeeeu? Você sabe que eu sou modéstia em pessoa. Deseja alguma coisa?
- Não, só bater um drink e curtir uma erótica por aí. Se você, tipo assim, tiver a fim e quiser me acompanhar...
- Eureka! Não fecho por menos de 350...
- 300, que eu cheguei do estádio e tô meio ferrado.
- OK, você venceu. Balada fechada – você sabe que eu sou muito chique, muito clubber, muito tudo...
Já sei o que ela queria: um beijo de língua chupada pra calar a boca.
- Tu enche muito o saco, isso sim.
- Sou todinho seu, zulu! Onde vamos curtir a erótica?
- Onde você quiser.
- Tá bom. E apaga teu fogo que sou acompanhante de nível! Não encho saco de ninguém, viu?!
Bianca!... aquele jeitinho moderno e bem solto em um corpo belíssimo enchia qualquer um de tesão. Mas depois vi que enchia mesmo a minha burrice. Eu já juntei minha turma da Indê pra curtir a balada com as cachorras – inclusive um playboy de menor, primo de jornalista e batedor da torcida no Morumbi, é quem garantiu o importado e o fashion, pra não fazer feio perante as ilustres. Aliás por que algumas putas insistem em se chamar acompanhantes? Será que é pra ser humilhada com elegância? Ou terem classe pra se esfregar com o primeiro que vier? Não! Talvez é pra valerem-se como objeto, pois antes da penetração, o pagamento – e como um provérbio solto por aí me dizia em mim, quanto mais valioso o cavalo, maior é o trote. E a queda também.
A desgraçada acabou me levando a um rave em Interlagos. Em pleno mês de folia, o fevereiro sagrado de Momo. Eu crente que ia bater ponto na Rosas de Ouro ver os caras da torcida esquentando asfalto para a minha fuzarca, a batucada tinindo no vai, não vai, eu fui. Ao autódromo de Interlagos, aturar tímpano abaixo um bate-estaca eletrônico cheio de gente maquiada qual um espantalho, brasileiro... sim! Brasileiros, que por obrigação moral deveriam valorizar a farra da terra em que foram paridos, mas qual o quê! Eu mesmo quase morri batido ao meio fio do Largo Paissandu com um tiro no peito, nas mãos de um corintiano – que também foi parido no Brasil.

***

Fiquei na minha, pra considerar a noite e volúpia que poderia vir com aquela exótica putinha do cabelo verde; e só depois de um dez minutos naquela fuzarca que comecei a enjoar. Batidas eletrônicas que pareciam ser eternas me tremiam até no sistema nervoso, uma ou três cervejas para tentar aliviar o desconforto, que vai aumentando a medida que eu vou passando meu frio olhar aos milhares de aborrescentes meio que androgenizados por um estilo sem pé nem cabeça, que vai melindrando, alucinando, entorpencendo, até mexer o corpo por embaraços. Tamanhos quanto os arco-iris de penteados, breguices da última moda da Parada Gay, aliada com a fila de piercings dignas de uma joalheria de camelô. E outras estranhices complicadas de se explicar, mas com certeza escandalizaria até o mais humilde e agnóstico dos cristãos. Não me sentia bem, quando...
- Desculpa, irmão! Você não pode entrar.
- Como não? Essa mina veio me trazer até aqui e...
- De que pagode você veio, jeca?
- Tá falando comigo, hein?
- Tô, por quê? Não sabe que aqui não é lugar de favelado?
- E você, seu espantalho que chama essa porra de música?
- Eu escuto. E daí? Não gostou, volta pro esgoto!
- Só se eu te levar junto!
- Ai, que meda!!!...
O clubber já via nascer na fúria da discussão o níquel do meu 38 cuspindo fogo. O arrastão começou grosso, com aquele burburinho desesperado dos espantalhos. Não esperava que a galera da torcida era tão esquentada quanto eu, não tinha cu de ouro, se sentia tão culpada quanto eu no golpe da botiqueira. Porra, ela queria o quê? O que faz com outros otários da high, ficar com etiqueta e trocar o tipo A pelo nhem-nhem-nhem da boate, da boutique, o diabo que for? Agora deram pra me confundir com pagodeiro dor de corno? O que é que é clubber? Quem foi o desgraçado que teve essa idéia... Ah, não! Meus parceiros da Independente foram tão esculachados como eu, com dois ou três moleques filhos de retirantes, não queriam levar desaforo pra casa: adeus bate estaca, botamos todo mundo pra correr.
- A rave acabou, seus filhos da puta!
Tinha sentindo na carne, e na minha cara. Não apenas porque vestia com orgulho a camisa do Raí; trazia a ideologia de um mundo decente que a burguesia rejeitou, e certamente só não fui taxado de playboy por minha convicção de um filho que não foge a luta como cidadão, um legítimo punho cruzado, que se dá bem com negão do subúrbio boa gente só pra quem merece, essas coisas. Confesso que fiquei confuso naquela hora que o pau cantava no lombo, acabando com a festa - se é que eu chamo de festa, muito menos essa gente de gente, também parida no Brasil e por causa disso querendo o nirvana dos Beatles, escarnecendo e conjurando um irmão de cor, tão próximo e tão íntimo nessa imprevisível metrópole... Só quem é periferia sabe o que é passar por caô em turminha de shopping, graças a brilhante esperteza de uma putinha metida a moderna por causa de uma pica de ouro! E o playboy, que aproveitou pra xingar minha mãe, era o namorado dela! Pronto: esgotei-me da minha cota de antropólogo nessa paulicéia foda.
Minha diversão estava apenas começando. Não queriam brincar com a minha cara?

***

24º DP. É até irônico demais para um machão depois da treta. Mais irônico ainda foi à sorte dos espantalhos lá da rave: ia apertar o gatilho quando a patrulha arrastou a favela onde eu estava. Flagrou o papai aqui exatamente sem camisa, quase melado de sangue e com o revólver fumegando, pois já tinha cumprido o dever de estourar o boy dela, e justo o cara que tinha me xingado na balada.
Fui sincero ao delegado, disse o que estava sentindo e o que me levou a cair naquela treta, afinal não podia trair os meus impulsos, muito menos o meu caráter. Mas alguém tinha me traído naquela hora, ah, maldita hora em que se sente a sensibilidade saturada – ironicamente estava seguro de mim até então, mesmo quando a Gaviões quase me matou. Fichas feitas, atenção sôfrega aos papéis como se pressentisse um segredo atrás da treta, personagens apurados devidamente, e lá vamos nós para o reconhecimento.
Os olhos penetravam fundos entre carrasco e algoz. Um perdendo a noção de frieza e segurança de si, outro querendo gritar toda a humilhação na hora. Nada tão dantesco que o olhar de um oprimido, seja lá qual for a treta. É como se sentisse a vida e a morte se beijando, e a sua consciência explodisse aos cacos, mais ou menos quando eu voltei a encarar a cara Bianca, álibi da roleta-russa frustrada.
Era a minha filha e eu nem sabia.
12/08/2003

locopepart — 30-11-2007 GTM -3 @ 14:15

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Os Vegetais

Os vegetais têm mil motivos para sorrir
Pois o mundo não lhes impõe empregos para mendigar
Nem suor e lágrimas para chorar
Sequer o sangue para alimentar
E fazer-lhes seguir nessa prova maldita
De cada dia

Nem as penas quando se jogam poemas ao vento
Nem o pinho que apenas tange
Nem a pena que me corta e esturrica a pena
Nem a voz para amordaçar-lhes
A rouquidão do sortilégio humano

Pois seus nirvanas e explosões de gol
São chuvas para suas lamas
São ventos para suas fumaças
São sóis para seus gelos
São orvalhos para seus brotos
Para enfim...

... descansarem de suas esperas eternas.

locopepart — 30-11-2007 GTM -3 @ 14:09

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